Todas as famílias são Disfuncionais
No teatro esse monstro chamado família é abordado às vezes na falência total dos sentimentos, da moral e do amor, noutras com um mínimo de compaixão e possibilidade de redenção.
O texto do Bruno Goulart, Enterro dos Lobos, nos entrega uma família em sua forma mais acentuada de perda da comunicação, onde o abismo formado pela incapacidade dos pais de adentrar o universo dos filhos, implica numa chegada a vida adulta onde os caminhos se bifurcam para os descendentes, de modo um tanto trágico para o primogênito. A clássica figura da ovelha negra surge cheia de culpa, melancolia, uma reação catatônica ao universo normal que a família busca consolidar sem sucesso.
O ingresso na vida adulta nos coloca de frente com uma realidade gritante, vivemos por anos com nossos familiares para de repente descobrirmos que vivemos em mundos distintos. As divergências no estilo de vida, questões geracionais, junto ao conflito de nos percebermos semelhantes em outras esferas, produz um efeito de distanciamento e aproximação doloroso.
A montagem sóbria, com direção eficiente do Ademir Muniz, traz um elenco que transmite com precisão a angústia dos problemas não resolvidos, a história em comum rompida de forma brusca. Pai e filho num misto de amor/ódio levado em banho maria, mãe e filha nostálgicas e buscando a estabilidade impossível no mar revolto que se tornou o núcleo familiar. Surpreendente atuação do autor da peça no papel do Jara, Walter Figueiredo sólido num personagem difícil – sentimentos contraditórios em relação ao pai assaltam o expectador, Débora Ester e Angela Figueiredo completam com um misto de doçura e amargor o retrato dessa família disfuncional.
Inevitável constatar que existe um Velho aprisionado no corpo do Jovem Bruno Bandido; para nossa sorte essa estranha simbiose resultou numa verve rara nos dias atuais, seja nos textos para teatro ou na prosa com toques fantásticos do seu belo livro Fonte do Boi. Oxalá a maldição de Benjamin Button acometa esse velho escritor.


