Todas as famílias são Disfuncionais

No teatro esse monstro chamado família é abordado às vezes na falência total dos sentimentos, da moral e do amor, noutras com um mínimo de compaixão e possibilidade de redenção.

O texto do Bruno Goulart, Enterro dos Lobos, nos entrega uma família em sua forma mais acentuada de perda da comunicação, onde o abismo formado pela incapacidade dos pais de adentrar o universo dos filhos, implica numa chegada a vida adulta onde os caminhos se bifurcam para os descendentes, de modo um tanto trágico para o primogênito. A clássica figura da ovelha negra surge cheia de culpa, melancolia, uma reação catatônica ao universo normal que a família busca consolidar sem sucesso.

O ingresso na vida adulta nos coloca de frente com uma realidade gritante, vivemos por anos com nossos familiares para de repente descobrirmos que vivemos em mundos distintos. As divergências no estilo de vida, questões geracionais, junto ao conflito de nos percebermos semelhantes em outras esferas, produz um efeito de distanciamento e aproximação doloroso.

A montagem sóbria, com direção eficiente do Ademir Muniz, traz um elenco que transmite com precisão a angústia dos problemas não resolvidos, a história em comum rompida de forma brusca. Pai e filho num misto de amor/ódio levado em banho maria, mãe e filha nostálgicas e buscando a estabilidade impossível no mar revolto que se tornou o núcleo familiar. Surpreendente atuação do autor da peça no papel do Jara, Walter Figueiredo sólido num personagem difícil – sentimentos contraditórios em relação ao pai assaltam o expectador, Débora Ester e Angela Figueiredo completam com um misto de doçura e amargor o retrato dessa família disfuncional.

Inevitável constatar que existe um Velho aprisionado no corpo do Jovem Bruno Bandido; para nossa sorte essa estranha simbiose resultou numa verve rara nos dias atuais, seja nos textos para teatro ou na prosa com toques fantásticos do seu belo livro Fonte do Boi. Oxalá a maldição de Benjamin Button acometa esse velho escritor.


Holiday Blues

Desde o primeiro dia naquele job, ela surgia no balcão. A sensação que eu sempre tinha era que ela não entrava como os outros clientes. Out of the blue, seus longos cílios estavam me perscrutando.
- Hey, Joey, como vai o dia?
Drinks, ela bebia Dry Martinis, Margueritas ou Mojitos, muitos Mojitos. Olhava em volta com aquela atitude de animal selvagem, alguns rapazes a abordavam e sentindo o gelo glacial dos seus olhos muito azuis, saiam pra fumar um cigarro pedindo licença.
- Você é bem caladão, né?
- Um barman serve bebidas, ele não é um contador de estórias.
- Porque tantas tatuagens?
- São bonitas, ou não?
- São maravilhosas, Joey.
- Porque a pergunta, então, Baby?
O gerente me perguntava como era transar com ela, só que eu não sabia. Ninguém nunca acreditou que eu não toquei um dedo naquela pele branca, leitosa como um White Russian.
- Existe alguma mulher no seu passado?
- Todo mundo tem uma estória triste pra contar, Betsy.
- Me conta a sua...
- Não é tão interessante que valha a pena, Baby.
Aquela noite em especial, ela estava sexy além da conta. Um vestido discreto e, por isso mesmo, muito instigante ao freqüentadores. As fichas da jukebox surgiam nas suas mãos, enchiam a atmosfera de black music velha e deliciosamente safada.
- Joey, Querido, mais um Mojito.
- Quantos você puder pagar, Betsy...
- E o meu crédito?
- Ok, hoje você tem crédito de sobra.
Enquanto dançava ela olhava para todos e pra ninguém em particular. Sorria com seus dentes levemente tortos, combinando com a boca sarcástica.
Atendi um monte de gente naquele sábado a noite, todos foram partindo rumo a outros lugares mais movimentados. As pessoas estão sempre em busca de um novo trago, uma nova trepada, sabe como é, todo mundo quer algo novo pra enganar sua mente.
- Você bebe?
- Sim, não no trabalho.
- Claro, nunca te vi bebendo, seu chato.
- …
- O que você gosta de beber?
- Bourbon sem gelo, uma cerveja belga as vezes...
- Belga?
- Sim, são cervejas não industriais, é uma frescura minha. Ela sorriu e o bar parecia um lugar mais quente, assim, do nada.
- Do que você não gosta, Man?
- De verdade?
- Sim, o que te incomoda...
- Fazer Mojitos.
- Como assim?
- É um drink simples, mas ele me incomoda.
Os copos estavam me esperando, ela caminhou até o W.C. lenta e delicadamente. Eu podia jurar que os pés dela flutuavam a cada passo. Quase na entrada, ela se voltou para trás e piscou pra mim. Aquela noite, parei no meu Bar preferido perto de casa, coloquei uma ficha na jukebox, Marvin Gaye começou a aquecer o fim de noite. Olhei no fundo do copo, em meio ao Bourbon, encontrei um par de puros olhos azuis.

A imprevisibilidade do Clima



O livro do Mario que saiu pela Realejo tem um título emblemático: os Anos do Furacão; Nesses últimos tempos a perspectiva do dramaturgo é a do olho do furacão, onde ainda reside um pouco de tranqüilidade . 

Gosto do teatro do Bluesman porque ao contrário de muitos autores que gostam de elipses, fábulas, etc. No teatro do Mario Bortolotto o que encontro é o momento atual, não só isso é claro, porque os temas caros a dramaturgia dele são sempre presentes, a amizade, solidão e a finitude da vida.

A Borrasca que chega agora nos encharca como uma precipitação atmosférica já esperada, nem por isso menos úmida, fria e dolorosa nos ossos. Sentimentos premonitórios, tristes e sombrios.

A proposta de colocar vários atores em cena me surpreende, tenho o Marião na conta de um dos maiores talentos pra montar elenco em atividade. Entendo que depois de tantos anos nesse oficio duro que é o teatro, ele esteja em busca de novos estímulos, preciso ver o texto com outros atores pra pensar melhor sobre essa inusitada opção (confesso que já pensei no meu amigo Walter Figueiredo num dos papéis, e no Gustavo Haddad que não vejo a tempos em cena,noutro).

Dessa vez lá estavam o Francisco Eldo Mendes e o próprio autor. Considero o timing dos dois em cena correto, gosto muito da atuação do Eldo, onde vamos sacando as insatisfações que não aparecem nas falas, mas num crescente desconforto físico.

No fim aquele familiar gosto amargo dos textos do Marião, um misto de familiaridade, tristeza, uma reflexão a cerca das nossas fraquezas e impotências, mas também a reafirmação da lealdade e solidariedade que só conhecem os amigos verdadeiros.